Joelma lembra o pai violento, diz que está pronta para amar e resume sua relação com Ximbinha hoje: “Nenhuma”

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Os óculos escuros cobrem as olheiras deixadas por uma noite mal dormida. Os famosos cabelos que voam de um lado para o outro no palco estão presos num coque. Zero maquiagem e look discreto composto de calça e uma camiseta com a inscrição “Jesus é fiel”. Quem olha a loura de 1,52 m de altura não a reconhece de cara. É preciso observar os gestos. As expressões. É no sorriso que a Joelma comum se encontra com a Joelma diva. E motivos para gargalhar não faltam após sobreviver à tormenta que foi a separação de Ximbinha e a saída da Calypso: “Nunca fui de me entregar”.

Em seu primeiro CD solo, tem muitas músicas que parecem indiretas ou respostas. Teve isso mesmo?

Diz um pouco do que eu passei só em 5% do álbum. Porque eu não quis escolher o repertório sozinha. Me tirei dessa função. Pedi ao Pedro (empresário) e ao meu produtor para escolherem. Porque me mandaram muitas músicas falando desse relacionamento, dessa fase de sofrimento. E eu não queria cantar isso. Vamos parar de sofrência. Eu queria algo pra cima, alegre. Aí gravei “A página virou”: “Bola pra frente que a página virou/Virou, virou/Se você para, seu mundo para de girar/Girar, girar” (ela canta). É mantra!

Qual a relação com seu ex-marido hoje?

Vamos pular essa parte? (risos) Nenhuma. Não existe relação.

Em nenhum momento você pensou em pegar um avião e sumir do mapa?

Foi a primeira coisa que passou pela minha cabeça. Mas eu tinha que cumprir os contratos. Naquele momento, eu queria sumir. E tive que dar a cara para bater. Subir no palco, dar meu melhor. Muitas vezes não conseguia.

Onde buscou força para bater cabelo no palco nos momentos mais complicados?

Desde menina, eu tenho dentro de mim uma força que é a energia que as pessoas veem quando estou cantando e dançando no palco. Acredito que isso dentro de mim é Deus. Nesse momento tão conturbado, me lembrei muito da minha infância. Nunca fui de me entregar. Jogava futebol com os meninos, caía, me ralava toda, levantada e seguia jogando. Daí pensei, êpa, nasci daquele jeito, sou aquela lá, e essa vai ter que voltar. Vou resgatar aquela menina dentro de mim.

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Qual é o saldo de tudo isso?

Muita coisa que aconteceu eu não queria que tivesse acontecido. Nem queria ser cantora. Queria a música dentro do meu quarto para sentir as emoções. Mas tenho uma missão. Sempre fui muito racional. Mesmo quando me feria, eu fazia o que achava que era certo. Doa em quem doer, até em mim. Achei que seria um caminho mais difícil. Minha vida virou uma novela, um jogo de futebol. Com muita torcida.

Você se sentiu amada?

Muito. Não sabia que era tão querida. Meus filhos ficaram do meu lado, meu fã-clube foi uma coisa incrível. Quando voltei a fazer rádio e televisão, fiquei receosa. Tive muitas dúvidas. E comecei a perceber a receptividade das pessoas. Mulheres de todas as idades, até homens vinham me desejar sorte. Não esperava. Achava que minha vida estava atrelada a algo.

A nova fase trouxe uma mudança na sua imagem…

Está mais por dentro do que por fora. Percebo no meu olhar. Não foi a estética. Antes de fazer qualquer procedimento, saiu um peso enorme das minhas costas que eu nem sabia que tinha. Depois de tudo, fiquei bem, fiquei feliz. Quando você é criança, não fica ligada no presente que vão te dar, se é caro, se é grande… O simples fato de você sair brincando atrás de outra criança já é felicidade.

Esse desapego sempre foi assim?

Uma vez eu fui aos EUA e comprei sete sacolas de roupa. Passaram três meses e as sacolas estavam lá, lacradas. Pensei: ‘o que estou fazendo?’. Minha mãe não tinha condições de me dar quase nada, até o alimento era difícil e eu era a criança mais feliz do mundo. Hoje quem cuida do dinheiro é o meu filho Yago. Ele está fazendo Administração e eu nunca fui boa nisso. Já fui muito passada para trás por confiar, por não dar o devido valor que o dinheiro pode ter.

No palco você parece uma guerreira, mas assim, de cara lavada, à vontade, parece muito doce…

Já fui assim, perdi essa docilidade e agora conquistei isso de volta. Foi a melhor coisa que aconteceu. Eu hoje tenho alegria de novo. Minha felicidade está em chegar em casa, ver meus filhos bem, comer pipoca na cama com eles, vendo um filme. Não assisto a noticiário. Tudo é tão difícil. E você traz uma carga mais pesada para você? Ah, não! Aprendi isso com Shaolin, quando você dá uma gargalhada de verdade o seu dia vira outro.

Você ficou deprimida com a separação?

Com a separação, não. Mas, antes do DVD que a gente gravou em Angola, comecei a não querer sair da cama, a não ensaiar. Só queria dormir. Não tinha problema com nada e vivia triste. Colocava a música para ensaiar e só chorava.

Que relação é essa que você tem com a fé?

Desde pequena. Não tem a ver com igreja. Tive uma infância bem difícil. Meu pai era violento, bebia muito e não trabalhava. Minha mãe sustentava ele e mais sete filhos. Não entendia aquilo, eu só chorava. Tinha uma mesa no meio da cozinha e minha mãe fez uma capa de mesa que ia até o chão. Era meu esconderijo ficar ali embaixo conversando com Deus. Nunca contei nada do que acontecia na minha casa para ninguém.

Você está preparada para amar de novo?

Estou pronta para amar de novo. Com certeza. A gente veio nesse mundo para isso. Mas aí tem que aparecer a pessoa certa. Tem que ter muita coisa parecida comigo. Imagina namorar um ateu?! Não ia dar certo.

Tem sido muito cantada?

Se estou, não percebo. Sempre acho que é fã. Se vejo alguém me olhando, acho que é olhar de fã. Alguém tem que chegar e falar, Joelma, acorda!

Mas você está sentindo falta de um namorado?

Não mesmo. Estou me amando e isso é bom demais. Não fiquei com ninguém antes nem depois da separação.

E, afinal, o cabelo muda ?

Ninguém mexe no meu cabelo! É tudo meu, eu cuido dele, hidrato. Só corto com a mesma pessoa há anos. Já fiz uma franja, me arrependi.